O autor, após abrir o texto citando autores de ficção que aderiram a não-linearidade para contar suas histórias, só terceiro parágrafo Marcos Palácios conjectura sobre até que ponto essa noção de “não-linearidade” é efetivamente apropriada seja ela aplicada ao texto convencional, seja ao hipertexto? Pode existir uma discursividade “não linear”? O autor afirma que o texto eletrônico “Afternoon, a Story”, é considerado um marco inicial da literatura em Hipertexto eletrônico e sua estrutura e os processos de leitura da obra são uma abertura para muitas das questões que nos preocupam neste texto, especialmente no que se refere ao uso do Hipertexto e do "lugar" do Autor e do Leitor nesse tipo de construção discursiva. Sem dúvida que nos espantamos quando nossos ouvidos se deparam com histórias ou estórias que começam pelo fim. Palácios afirma que uma narrativa tradicional, ou seja, não hipertextual, independentemente de que suporte esteja sendo usado, chega sempre a um fim, ou porque chegamos à última página do livro. “A Poética de Aristóteles (350 a.C.) já determinava claramente que uma Narrativa deve ter início, meio e fim...
No entanto, queira-se ou não, eventualmente chegamos a um “fechamento”, representado pela projeção do último fotograma no processo de projeção do filme. Com o Hipertexto, o Fechamento não se dá, ou pelo menos não se dá da forma à qual estamos habituados. Essas características têm levado, no entanto, à apressada definição do Hipertexto como simplesmente “não-linear”, sem maiores qualificativos ou reflexões. A noção de "não-linearidade", tal como vem sendo generalizadamente utilizada, parece-nos aberta a questionamentos. Para um melhor entendimento sobre os conceitos de Linearidade/Não-linearidade, é útil fazer-se uso da distinção entre Discurso (Discourse) e História ou Estória (Story) no âmbito da Narrativa.
Podemos fazer portanto a distinção entre a Linha do Discurso e a Linha da História na Narrativa. Num filme ou numa novela, o Discurso é sempre linear. Palácios trás a tona algumas obras famosas na telona pra mostrar onde está linearidade e não-linearidade na história e é rico em exemplos de passagens em que vários parágrafos ou mesmo páginas são usadas para desfiar detalhes ínfimos no curso da narrativa.
Marcos Palácios ao concluir o artigo mostra que a apropriação das ideias trabalhadas por Gunnar Liestøl levam a uma melhor caracterização do Hipertexto enquanto estrutura discursiva Multi-Linear, um termo que consideramos muito mais preciso e mais apropriado do que Não-Linear, por traduzir mais adequadamente a multiplicidade de possibilidades de construção e Leitura abertas pelo Hipertexto.
PRINCIPAIS CITAÇÕES
“Além disso, o argumento de uma novela literária moderna ou de um filme raramente é apresentado de forma linear. Estamos acostumados a flash-backs, a compressões de vários anos da história numa única cena ou parágrafo ou, inversamente, descrições hiper-detalhistas que se estendem muito além do "tempo real" de uma ação”. (P.02).
“Em 1990, Michael Joyce produziu e publicou uma obra ficcional em Hipertexto, que viria a se tornar um clássico: Afternoon, a Story. O texto eletrônico, que é atualmente comercializado no formato de um disquete, pode ser adquirido através da editora Eastgate e foi produzido através de um software chamado Storyspace, especialmente desenhado para facilitar a construção de intrincadas tramas usando Hipertexto”. (P. 02).
“Afternoon, a Story, é considerado um marco inicial da literatura em Hipertexto eletrônico e sua estrutura e os processos de leitura da obra são uma abertura para muitas das questões que nos preocupam neste texto, especialmente no que se refere ao uso do Hipertexto e do "lugar" do Autor e do Leitor nesse tipo de construção discursiva”. (P.02).
“A expectativa de um fim, advém, é claro, de nossa experiência com a narrativa tradicional (seja numa narração oral, num texto, numa peça teatral, num filme...). Desde crianças ficamos na expectativa do "fechamento" das histórias que nos são contadas...”. (P. 03).
“Não é de se espantar que nossos ouvidos tenham dificuldades quando nos confrontamos, por primeira vez, com composições musicais atonais”. (P.03).
“Nossa experiência de leitura dos Hipertextos deixa claro que é perfeitamente válido afirmar-se que cada leitor, ao estabelecer sua leitura, estabelece também uma determinada "linearidade" específica, provisória, provavelmente única”. (P. 04).
“Christian Metz7 faz a seguinte observação: " A narrativa é (...) uma sequencia duplamente temporal (...): Há o tempo da coisa contada e o tempo da narrativa (o tempo do significado e o tempo do significante). Essa dualidade não só torna possíveis todas as distorções temporais que são lugar comum nas narrativas ( três anos da vida do herói sintetizados em uma ou duas sentenças numa novela ou algumas cenas num filme, etc) (...) o que nos leva a pensar que uma das funções da narrativa é inventar um esquema temporal em termos de um outro esquema temporal". (P. 04).
BIBLIOGRAFIA
PALACIOS, Marcos Silva. Hipertexto, Fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva.

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